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Home Office- é bom?ou não trabalhar em casa?
Acordar e conectar-se à internet. Trabalhar até 12 horas em um único dia sem sair de casa. Entre um e-mail e o fechamento de um relatório, dar atenção aos filhos e à esposa. Quando adotou essa rotina, há pouco mais de seis anos, o paulista Maurício Gaudêncio imaginava estar em linha com uma tendência irreversível: a do trabalho a distância. Gerente de desenvolvimento de negócios da Cisco Systems – uma multinacional na qual todos os funcionários estão autorizados a realizar suas tarefas em casa –, Gaudêncio logo sentiu os benefícios do chamado home-office. “Ainda hoje, minha produção chega a ser três vezes maior”, garante. E ele não foi o único. No final dos anos 90, com a popularização da rede mundial de computadores, milhares de empresas passaram pela experiência de mandar suas equipes para casa. “Chegou-se a prever que os edifícios comerciais ficariam vazios, pois a maior parte das pessoas iria realizar suas tarefas a distância“, relembra o analista Francisco de Assis Gonçalves, da Teleoffice Consultoria, de São Paulo. Hoje, porém, passados seis anos, Gaudêncio e os demais entusiastas do home-office formam um grupo pequeno. O método é utilizado, basicamente, por grandes multinacionais – como a Cisco –, que trazem para o Brasil o método aplicado em outros países. “São companhias cujos processos de trabalho são mais flexíveis”, comenta Ligia Nery da Silveira, diretora da DCO Consultoria e Outplacement, de Porto Alegre.
Os escassos dados disponíveis revelam que o trabalho a distância ainda não deslanchou no Brasil. O que se sabe, de acordo com estimativas da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividade (Sobratt), é que 3 milhões de funcionários no país cumprem jornada fora da empresa. Mas é preciso dar um desconto: a estatística abrange profissionais que, de uma forma ou de outra, acabam trabalhando longe da empresa de vez em quando – como vendedores, distribuidores etc. Defensor do teletrabalho, o assistente executivo da Sobratt, José Luís de França Neto, afirma que é cedo para se concluir se o conceito ainda tem chances de se popularizar no Brasil. “É uma estimativa. Ainda não há dados oficiais a respeito”, informa. Proporcionalmente, porém, não há como negar que o Brasil está longe de alcançar países como os Estados Unidos, onde 45 milhões de pessoas trabalham no aconchego do próprio lar, segundo a estimativa da Associação e Conselho Internacional de Teletrabalho (ITAC, na sigla em inglês).
Diversos fatores impedem a popularização do trabalho a distância no Brasil. A começar pela cultura de desconfiança que impera entre patrão e empregado. Em muitas empresas, persiste a visão de que funcionário ausente não produz. “Muitos chefes precisam ter vários empregados sob a ‘asa’. Do contrário, na hora em que ficam sozinhos, se sentem privados de poder, de autonomia”, explica. Não por acaso, a maioria das organizações controla o desempenho de seus funcionários de acordo com a quantidade de horas trabalhadas e a pontualidade – e não conforme o resultado que apresentam. “Temos de aprender a valorizar o profissional que gera idéias, que é criativo e apresenta resultados trabalhando tanto dez minutos quanto dez horas por dia”, opina Ligia Silveira, da DCO. Nas multinacionais habituadas a esse sistema, existem métodos de gestão que acompanham a produtividade de cada um. Atualizado com freqüência, esse monitoramento impede que um ou outro funcionário confunda home-office com mamata. “Quem se julga esperto e fica um tempão sem produzir nada conseguirá resistir por, no máximo, três meses. No quarto mês, ao prestar contas sobre os resultados, vai acabar dançando”, destaca Gaudêncio, da Cisco.
Hora extra – Para viabilizar o trabalho remoto, não basta mandar o funcionário para casa. É preciso investir no seu treinamento e educar a família – que deve entender por que a casa se transformará em um local de trabalho. Além disso, é importante manter um diálogo aberto com os funcionários que não recebem a oportunidade de sair da empresa. “Caso não haja uma preparação, todos os ganhos de produtividade vão por água abaixo”, avisa França Neto. Um dos riscos é o de sujeitar a empresa a processos judiciais. A rigor, quem trabalha a distância não cumpre um expediente definido – ao contrário, fica à disposição da empresa praticamente “a qualquer hora, em qualquer lugar”. Isso abre brechas para empregados descontentes buscarem na Justiça uma compensação por eventuais horas extras e despesas como luz, água e telefone, entre outras. De acordo com França Neto, muitas companhias fornecem um notebook ao funcionário e o mandam para casa. Mantêm vínculo empregatício, mas não adicionam nenhuma cláusula específica no contrato de trabalho. E aí dão margem a reclamações futuras. “Esse empecilho pode ser resolvido com regras esclarecidas no documento assinado por ambas as partes”, sintetiza Gonçalves, da Teleoffice.
Outro foco de preocupação é a segurança. As grandes corporações temem que senhas e arquivos confidenciais se tornem mais vulneráveis no vaivém entre o escritório e a residência. “Os empresários consideram que, em casa, o indivíduo toma menos cuidados com os dados. Além disso, é difícil gerenciar o nível de segurança do computador que está longe das instalações da companhia”, argumenta João Pedro Albino, doutor em Tecnologia da Informação Aplicada à Gestão do Conhecimento pela Universidade de São Paulo (USP). Um estudo da consultoria norte-americana SonicWall, realizado em março de 2006, dá uma idéia de como o teletrabalho deixa a informação vulnerável. Nove a cada dez entrevistados admitem que estão pouco ligando para a proteção de senhas enquanto estão em casa. E apenas 12% trocam arquivos com a sua empresa, utilizando ferramentas de encriptação de dados – que utilizam um algoritmo para tornar o documento ilegível a eventuais hackers.
Office-boy remoto – Mesmo com todos esses problemas, há quem diga que o trabalho a distância ainda irá se consolidar, inclusive no Brasil. Cada vez mais multinacionais desembarcam no país e trazem, na bagagem, um amplo conhecimento sobre como se relacionar com funcionários que não batem ponto. “Elas trazem a experiência aplicada em outros países”, aponta França Neto. A própria Cisco Systems é um exemplo. Do office-boy ao presidente, todos os seus empregados dispõem de notebook e celular, com os quais podem trabalhar onde quer que estejam. De acordo com Gaudêncio, o trabalho remoto – ou “móvel” – permite que a Cisco economize, só com aluguel, até R$ 1,4 milhão por ano. “Estamos alojados num dos prédios mais caros de São Paulo. Se todos os nossos funcionários tivessem sua própria baia lá, teríamos de alugar quatro andares, o dobro do que ocupamos atualmente”, justifica. O trabalho a distância também possibilitou que a multinacional encerrasse as atividades de um escritório comercial que mantinha em Curitiba.
Um fator que pode ajudar o trabalho a distância a se disseminar é a crescente preocupação das empresas com a qualidade de vida de seus funcionários. Um levantamento realizado pelo Instituto Superior da Empresa (ISE), um centro de pós-graduação para empresários e altos executivos de São Paulo, mostra que 39% das companhias brasileiras encaram o teletrabalho como uma maneira de fisgar e reter talentos. A possibilidade de ficar perto da família e dos afazeres domésticos é especialmente apreciada por profissionais de 30 a 40 anos. São aquelas pessoas que já conquistaram uma posição confortável na carreira e que, aos poucos, começam a se questionar sobre o fato de aproveitarem ou não os momentos com os familiares. “Há muitos pais-executivos frustrados. A flexibilidade de horários é uma maneira de se buscar qualidade de vida e segurar profissionais ‘top de linha’. O trabalho remoto oferece essa possibilidade”, explica Nei Maldaner, diretor de tecnologia da informação da Sisnema, empresa de Porto Alegre que oferece qualificação profissional no setor de informática.
Na gigante IBM, por exemplo, o trabalho remoto é um benefício utilizado para atrair talentos. “Num mercado tão competitivo, é importante criar formas de satisfazer os profissionais qualificados. E a flexibilidade de trabalho é uma delas”, destaca Fabiana Galetol, gerente de recursos humanos da IBM no Brasil. A empresa oferece o programa Work Life Balance, que flexibiliza o sistema interno de trabalho e, entre outras coisas, permite a adição do home-office. Hoje, dos 9 mil funcionários da multinacional no Brasil, 60% estão inseridos em uma das opções oferecidas no programa. No caso do home-office, a empresa arca com todas as despesas e monta o escritório na casa do funcionário, levando em consideração o espaço que ele tem disponível. “A flexibilidade é vista com bons olhos pelos empregados, e o interesse é grande”, destaca Fabiana.
A satisfação é comprovada por Alberto Silveira Junior, programador que vive em Florianópolis e trabalha para a IBM – embora a empresa não tenha escritório na capital catarinense. Contratado em janeiro de 2005, Silveira passou a trabalhar a distância três meses depois. “Nada como trabalhar com uma grande flexibilidade. Ainda costumo dizer que home-office não necessariamente quer dizer ficar em casa”, comenta Silveira. Neste ano, ele passou três meses viajando pelos Estados Unidos, sem deixar de contribuir com a empresa. “Assim, eu me mantenho motivado, fazendo uma das coisas de que mais gosto – viajar. Isso me torna mais produtivo”, explica o funcionário da IBM.
Daqui pra frente – Em 1996, o irlandês Charles Handy, ex-executivo da Shell Internacional, vislumbrou o futuro do trabalho a distância em um artigo intitulado “A Organização Virtual: Como Confiar nas Pessoas Que não Vemos”. Disse ele: “Em 20 anos (até 2016, portanto), os escritórios não terão um lugar físico determinado. As pessoas vão conhecer seus colegas de trabalho por meio das telas de computadores”. Hoje, a realidade não está muito distante daquela imaginada por Handy. À medida que avançam as tecnologias de comunicação e transmissão de dados, cada vez mais empresas se tornam organizações amorfas, sem fronteiras. O teletrabalho, hoje, não é necessariamente realizado a partir de casa – e sim de escritórios formais, bem-equipados, localizados em diferentes pontos do mundo. A Índia, por exemplo, está se tornando o maior fornecedor de telemarketing dos Estados Unidos e da Inglaterra. Entre os britânicos, aliás, já se tornaram comuns as reclamações contra as companhias telefônicas, que encaminham reclamações e dúvidas a atendentes com um entusiasmado sotaque indiano.
Em uma pesquisa recente, a consultoria Gartnet projetou um cenário extremamente cético a respeito do trabalho em casa. Afirmou que, até 2008, não mais do que 41 milhões de trabalhadores do mundo irão trabalhar em casa – menos do que existem nos Estados Unidos, atualmente. “Nada substituirá totalmente o contato físico. O olho no olho é fundamental”, explica Gaudêncio, da Cisco.
Autor: Daniele Alves Email do Autor: n.d.
Fonte: Revista Amanhã
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