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Tendências-empregos de sobra na área de TI






As últimas semanas têm sido particularmente assustadoras quando o assunto é aumento do desemprego. Há pouco dias, a Volkswagen anunciou a demissão de seis mil trabalhadores e, mesmo tendo voltado atrás, sabe-se que a situação dos empregados não está exatamente resolvida. Alguns dias depois, a indústria têxtil revelou o fechamento de 60 mil postos de trabalho no ano e, na semana seguinte, a Fiesp anunciou que cinco mil vagas foram eliminadas na indústria paulista, no mês de agosto. Há vários culpados, mas um dos principais é o conhecido desemprego estrutural, aquele provocado por mudanças na tecnologia de produção. Cada vez mais, a tecnologia reduz a necessidade de trabalhadores, ao mesmo tempo em que aumenta a produtividade das empresas. Essa vilã cruel, no entanto, pode trazer em si parte da solução para o problema. Ou agravar ainda mais a situação do desemprego, caso a oportunidade não seja aproveitada. O programa “Formação de Capital Humano em Software (FCHS)”, que será divulgado quinta-feira pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), indica que hoje há um déficit de 17 mil profissionais de tecnologia no mercado de trabalho. E que poderá haver uma oferta de 230 mil vagas sem condições de serem preenchidas em 2012, se não se estruturar a qualificação de mão-de-obra para esse mercado, que movimenta US$ 13 bilhões por ano no País.

O problema nas empresas hoje já é grave. A TCS Brasil, empresa do grupo indiano Tata, tinha 200 funcionários há um ano e meio. Hoje tem 1,1 mil e estima que, em três anos, empregará 4 mil pessoas. “Não estamos conseguindo driblar a falta de mão-de-obra”, diz Sérgio Rodrigues, presidente da TCS Brasil. “Acabo perdendo clientes de maneira indireta porque não consigo ser agressivo em preços ao ter de formar ou contratar no mercado mão-de-obra”. A empresa, que investe entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão ao ano em treinamento, acaba de estruturar uma parceria com sete instituições de ensino brasileiras aos moldes do que faz na Índia. “A diferença é que lá as parcerias são com universidades porque o governo determinou, há 40 anos, a prioridade na área”, diz. “No Brasil, podemos ter técnicos de ensino médio”. A TCS pretende contratar 300 estudantes por meio dessa parceria, ao longo dos próximos seis meses. Para Rodrigues, o principal motivo da carência de trabalhadores qualificados foi a extinção dos cursos técnicos em 2000. “Foi uma grande falta de visão estratégica”, diz.

A situação repete-se em qualquer outra companhia da área: o crescimento só não é maior porque há a amarra da mão-de-obra. A consultoria Accenture tem aberto entre 500 a 1 mil vagas por ano, nos últimos quatro anos e sempre recrutou profissionais nas grandes faculdades do Brasil. Recentemente, abriu o leque e passou a inscrever seus futuros empregados – 95% dos estagiários contratados nos últimos anos da faculdade são efetivados – em escolas que formam tecnólogos. “A oferta de profissionais na área de exatas tem diminuído ao longo do tempo”, afirma Petronio Nogueira, sócio da Accenture. Já a fabricante de microprocessadores Ceitec tem ido buscar os coordenadores do fábrica no exterior. “Não existe no Brasil profissionais com experiência em fábricas de semicondutores”, diz Sérgio Souza Dias, presidente do Ceitec. “Nossos salários não são tão competitivos, mas o atrativo é o fato de que há muitos brasileiros querendo ser repatriados”. A empresa estima que terá 250 vagas quando estiver funcionando, em um ano.

Salários altos e vagas em abundância são um prato cheio para o governo anunciar, a menos de dez dias das eleições, um plano ambicioso de reestruturação do modelo de formação de profissionais de tecnologia. Ainda pequena, essa área emprega entre 180 mil e 200 mil pessoas no País. Pouco, se comparado ao 1,6 milhão de vagas da indústria têxtil, por exemplo. “O mercado de TI é extremamente atraente porque tem grandes perspectivas de crescimento não só no mercado interno como também das exportações”, afirma Eratóstenes Ramalho de Araújo, coordenador de capacitação da Softex, entidade de promoção do software brasileiro que ajudou o MCT a elaborar o programa. “E o Brasil é reconhecido por sua excelência e criatividade em soluções”.

O programa que será anunciado pelo governo foi formatado de maneira modular e permite que se formem profissionais de acordo com os investimentos disponíveis. Para educar por volta de 50 mil profissionais até 2012 seriam necessários R$ 500 milhões. Já um plano mais ambicioso, que pretende atingir 130 mil trabalhadores, exigiria R$ 1 bilhão. Caro porque a mão-de-obra requer treinamento intensivo e contínuo, graças à constante evolução da área. “Essa verba seria dividida entre empresas, governos, escolas e instituições financeiras, já que esse é um projeto que beneficiará toda a sociedade”, diz Araújo. Projetado para ser realizado ao longo dos próximos sete anos, mas com a perspectiva de ser estendido por mais tempo, o FCHS abrange várias áreas. Estão lá reciclagem, novos cursos, do técnico à pós-graduação, atração de jovens talentos e recolocação de profissionais de outras áreas para a de TI. “Não conheço o programa, mas tenho olhado as propostas políticas e vejo ausência de planejamento de longo prazo, como aconteceu com a formação de ilhas de excelência como a Embrapa e a Embraer”, afirma Sérgio Amad Costa, professor de Recursos Humanos da FGV-SP. Ter mão-de-obra treinada, no entanto, nem sempre significa tranqüilidade para as empresas. A Embraer, por exemplo, está processando a rival Gulfstream que tem recrutado trabalhadores da empresa pelos jornais de São José dos Campos, onde tem sua sede. No processo, a fabricante de aviões brasileira alega que a Gulfstream estaria tentando aliciar seus empregados, para ter acesso a sua tecnologia e clientela. Pelo jeito a placa de “Há vagas” continuará pendurada nas empresas de tecnologia por muitos anos.

Fonte: Revista Isto É Dinheiro/Cristiane Barbieri

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