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Os funcionários que agora trabalham em suas casas
Na década de 80, o trabalho a distância foi apontado como uma tendência irreversível nas empresas. Imaginava-se que, com a evolução da tecnologia, as companhias teriam fortes razões para permitir que seus funcionários trabalhassem em casa: eles não padeceriam no trânsito e não perderiam tempo jogando conversa fora ao lado do bebedouro. Assim, produziriam mais e melhor. Menos gente nos escritórios também significaria redução nos custos fixos em aluguéis e equipamentos. Nos anos seguintes, porém, o cenário inexorável do teletrabalho não só deixou de se concretizar com o impulso esperado como começou a ser visto como algo temerário para o equilíbrio familiar dos profissionais, e para o desempenho das próprias companhias, que teriam sua coesão cultural ameaçada. Quase duas décadas depois, aos poucos a idéia volta a fazer sucesso no mundo corporativo. "Durante muito tempo, o teletrabalho esbarrou no modo descuidado com que as empresas procuravam implementá-lo", diz Alvaro Mello, diretor da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades. "Agora as companhias estão descobrindo que ele pode ser uma boa solução, desde que adotado com cautela".
A Ticket, braço de serviços do grupo Accor, é uma das empresas que apostaram recentemente no teletrabalho. O alvo foi a área comercial. "Precisávamos aumentar nossa presença no país e, ao mesmo tempo, reduzir ao máximo os investimentos em estrutura física", diz Caio Bittencourt, diretor de vendas da Ticket. De março do ano passado até agora, as filiais de 17 cidades foram fechadas e, do total de 96 vendedores e gerentes de vendas em todo o país, 42 passaram a usar a infra-estrutura tecnológica montada pela empresa em suas casas. Embora gastem a maior parte do dia na rua visitando clientes, esses profissionais perdiam tempo indo e vindo ao escritório para realizar tarefas burocráticas, como encaminhar relatórios e pedidos. A elaboração e a implantação do projeto custaram à Ticket 400 000 reais. A economia com a redução dos custos operacionais chegou a 2 milhões de reais. Mas o principal benefício foi o aumento da produtividade -- desde o início do projeto, as vendas da equipe remota aumentaram 76%, e o volume de contratos fechados, 40%.
Para chegar a esses resultados, a Ticket precisou preparar os funcionários para a mudança. "Instruímos os chefes a conversar com as equipes e monitoramos aqueles que podiam ser resistentes ao processo", afirma Bittencourt. Houve também uma preocupação de que os profissionais tivessem tempo para se acostumar com a nova rotina. Ricardo Mendonça, por exemplo, vendedor da Ticket no Rio de Janeiro, está sendo preparado para se juntar ao time de teletrabalhadores. Morador do bairro de Jacarepaguá, zona oeste da capital, ele gasta cerca de 3 horas por dia para ir e voltar da filial, no centro da cidade. Há dois meses, recebeu o aval da empresa para realizar de casa, alguns dias da semana, parte de suas tarefas. A mudança deu a Mendonça mais tempo para se dedicar às vendas, e o número de visitas mensais aos clientes passou de 30 para 60. "Estou adorando a experiência", afirma. Ainda assim, ele só receberá o sinal verde para se desligar totalmente da filial daqui a três meses. Até lá, a Ticket espera ter certeza de que o trabalho a distância será realmente benéfico para Mendonça e para a empresa. "Em cidades como o Rio de Janeiro, não iremos desativar nossa filial. O risco é que as pessoas continuem recorrendo a ela sem necessidade, mesmo tendo um escritório em casa", afirma Eliane Aere, diretora de recursos humanos e tecnologia da Ticket.
Os executivos envolvidos no projeto também se cercaram de cuidados para evitar que os funcionários fossem vítimas de alguns perigos que rondam o teletrabalho. "Eu tinha receio de me sentir afastado dos colegas e da empresa", afirma Gustavo Gameiro, vendedor da Ticket no interior de São Paulo. Segundo especialistas, o teletrabalho pode, sim, alienar os profissionais. "O isolamento social é algo com que as empresas têm mesmo de se preocupar", afirma Mello. A receita para minimizar esse risco foi incentivar as equipes a criar rituais para continuar se encontrando presencialmente -- os funcionários passaram a ter dia e hora certos para discutir problemas, trocar idéias e fofocar. Teresa Carvalho, vendedora da Ticket em Salvador, criou uma rotina de almoço com seus pares às sextas-feiras. "O contato com os colegas é essencial, mas no escritório eles acabam sendo uma boa fonte de dispersão", afirma. Teresa diz que agora está mais produtiva e que encontra tempo para se dedicar a outras atividades. Uma delas: o passeio matinal com Laila, sua yorkshire. ___________________________________________________________________
O manual do teletrabalho
Medidas que as empresas devem tomar para adotar a política com sucesso:
Viabilidade O trabalho remoto só é indicado para profissionais que podem realizar mais de 50% das tarefas a distância.
Adesão voluntária Permita que a participação seja espontânea — mas garanta que os chefes participem para dar o exemplo.
Rotina Estabeleça horários para que os funcionários que trabalham remotamente se encontrem com colegas e superiores. ___________________________________________________________________
Os vendedores da Ticket não são os únicos seduzidos pelas vantagens do trabalho a distância. No Serpro, órgão responsável pelo processamento de dados do governo federal, 23 funcionários de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo participam de um projeto piloto. Assim como a Ticket, o Serpro precisou acrescentar um termo aos contratos de trabalho explicitando as mudanças, uma forma de evitar processos na Justiça do Trabalho. Também para se prevenir de problemas trabalhistas, a intranet do órgão é bloqueada se o funcionário exceder as 40 horas semanais permitidas na frente do computador. Iniciativas como as da Ticket e do Serpro ainda parecem acanhadas quando comparadas às de empresas européias e americanas. Na Sun Microsystems, nos Estados Unidos, quase 50% dos funcionários trabalham em casa. Na Agilent, outra empresa de tecnologia, 70%. Os 42 funcionários da Ticket que trabalham em casa representam menos de 5% dos empregados da empresa. Para Mello, porém, essas comparações devem ser feitas com ressalvas. "Estamos mesmo a anos-luz desses países, mas no caminho correto", diz.
Autor: Ana Luiza Herzog Email do Autor: n.d.
Fonte: Revista Exame
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