A economista Flávia Grosso, 55 anos, tem colecionado recordes. Desde que ela assumiu o comando da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), em maio de 2003, o faturamento do pólo industrial da região saltou de US$ 10 bilhões para US$ 20 bilhões. O volume de empregos subiu de 60 mil postos de trabalho para 103 mil. E até mesmo as exportações, que antes eram irrisórias, hoje já estão na casa dos US$ 2 bilhões. Graças a esse desempenho, o Amazonas vem sendo há quatro anos o Estado que mais cresce no País, num ritmo que é mais do dobro da média nacional. Nascida em Manaus, e funcionária de carreira da Suframa há 32 anos, ela atribui os bons resultados à prorrogação dos incentivos fiscais federais até 2023 e ao novo modelo tributário do governo estadual. “Isso restaurou a confiança e fez com que, só no ano passado, aprovássemos investimentos de US$ 4,6 bilhões”, diz ela. Flávia afirma que as empresas instaladas em plena floresta amazônica estão entre as mais eficientes do mundo e cita exemplos da Honda, da Samsung e da Nokia como padrões de produtividade. O próximo passo, diz ela, é reforçar investimentos em capital humano e desenvolvimento de produtos. A seguir, entrevista do jornalista Leonardo Attuch, publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro:
O que explica o desempenho recente do Amazonas, com crescimento superior a 10% ao ano na indústria? FLÁVIA GROSSO – O ponto crucial foi o apoio do governo federal que, em 2003, prorrogou os incentivos. Eles estavam previstos para acabar em 2013 e havia muita pressão para encerrá-los, o que criava um ambiente de desconfiança em relação ao futuro. Quando eles foram prorrogados para 2023, restaurou-se a confiança e os investimentos voltaram. De 2003 para cá, estamos crescendo 89% ao ano em termos de aprovação de novos projetos. E só no ano passado foram US$ 4,6 bilhões. Com isso, ficou claro que o Pólo Industrial de Manaus faz parte de um modelo de desenvolvimento de governo, que é visto como estratégico pelo País.
Quais têm sido os números da produção industrial do Amazonas? FLÁVIA – Só para dizer os mais recentes, o crescimento foi de 13% em 2004, de 12% em 2005 e, neste ano, o faturamento das empresas irá crescer mais de 30%.
Apesar disso, ainda existe uma visão, em parte do País, de que a indústria de Manaus é “maquiladora”. É uma imagem distorcida? FLÁVIA – Totalmente. Nesses investimentos recentes, há inúmeros fornecedores se instalando por aqui, o que demonstra o adensamento da cadeia produtiva. Além disso, basta dar o número de que, no pólo de Manaus, o índice de nacionalização é de 52%, o que desmonta completamente essa tese. Falar em maquiagem não faz o menor sentido, até porque os projetos só podem ser instalados com incentivo se cumprirem um processo produtivo básico, com várias etapas de produção industrial local.
Existem exemplos de peso acima desses 52%? FLÁVIA – O produto mais vendido da Honda, que é a CG 150, é feito com 98% de nacionalização. Na indústria de televisores, essa taxa saltou para cerca de 70%, depois da produção de cinescópios pela Samsung, em Manaus. Nos celulares, nós temos um cluster formado. A Nokia trouxe vários de seus componentistas e a nacionalização é também de mais de 60%.
Existem incentivos estaduais também? FLÁVIA – Existem e, em 2003, houve uma revisão do modelo tributário, que foi muito importante para esse salto do pólo de Manaus. A região foi abençoada com um pacote federal e outro estadual.
Onde falta avançar? FLÁVIA – Vejo duas grandes vertentes: o desenvolvimento do capital intelectual na região e a aposta na inovação, para que as empresas daqui criem e lancem cada vez mais novos produtos. Com isso, o pólo de Manaus poderá fazer frente até à China.
É possível concorrer com eles? FLÁVIA – Claro que é. Em termos de custos, as empresas daqui já são mais eficientes e estão muito próximas de mercados desenvolvidos, como os Estados Unidos. Além disso, estão totalmente atualizadas do ponto de vista tecnológico. Com mais inovação, é possível não só competir como também superar os chineses. Se não tivermos o preço deles, poderemos ter uma qualidade maior e a assistência just-in-time.
As multinacionais daqui elogiam muito a mão-de-obra local. Isso é uma vantagem comparativa? FLÁVIA – É um dos maiores fatores de competitividade. Deixa eu dar alguns exemplos. No Japão, os trabalhadores entregam uma motocicleta Honda a cada 46 segundos. Em Manaus, a cada 20 segundos. E isso no mesmo processo produtivo. Na ótica, o benchmark internacional é de 800 lentes por homem em oito horas de trabalho. Manaus faz 1,6 mil. Na telefonia celular, a produtividade daqui é três vezes maior do que a média mundial. E a nossa fábrica de cinescópios da Samsung ganha da Coréia do Sul e da China em qualidade e em produtividade. Agora, até a Coca-Cola de Manaus ganhou o prêmio em Atlanta como a melhor fábrica deles no mundo.
Mas no passado havia a percepção de que essa indústria era muito atrasada. FLÁVIA – Isso é passado. Nos anos 80, a política aqui era de índice de nacionalização a qualquer preço e nós não deixávamos as empresas praticarem a reconversão industrial. Quando veio a abertura, no governo Collor, tivemos de mudar a política para a região. Mudamos de índice de nacionalização para etapas básicas de produção. E permitimos que as empresas trouxessem máquinas para se modernizar. Antes do Collor, não se importava nada.
O Brasil perdeu muito com isso? FLÁVIA – Eram outros tempos. Eu mesma era diretora do controle de importação da Suframa e nada podia passar. As máquinas não entravam porque nós achávamos que haveria desemprego. A política era de alta absorção de mão-de-obra. E isso era possível porque nós tínhamos um mercado cativo: o mercado brasileiro.
Qual era o volume de empregos naquela época na Zona Franca? FLÁVIA – O máximo que a região gerou nos anos 80 foi 72 mil empregos. Com a abertura, houve uma queda drástica e houve milhares de demissões. Mas o curioso é que hoje o volume de empregos é muito maior. Em 2002, eram 60 mil postos de trabalho. Hoje, são 103 mil. E o melhor é que agora as empresas daqui têm competitividade para concorrer com os importados no mercado brasileiro e também para concorrer no Exterior.
Isso explica as exportações da Zona Franca? FLÁVIA – Exatamente. As vendas externas começaram em 1996, com pouco mais de US$ 100 milhões. Desde então, participamos de várias feiras internacionais e ajudamos a criar uma cultura exportadora em Manaus. No ano passado, chegamos a US$ 2 bilhões.
O número será maior neste ano? FLÁVIA – Deveria ser, mas aconteceram alguns problemas. E o maior nem foi o câmbio porque as empresas daqui importam e exportam, o que, no final, traz um certo equilíbrio. O que nos atrapalhou mesmo foram as greves, como as da Receita Federal e da Vigilância Sanitária. Os navios, cheios de contêineres, ficavam parados no porto. Além disso, a Nokia transferiu parte da exportação que era feita para os Estados Unidos para a planta do México. Mas ainda assim queremos chegar aos US$ 2 bilhões.
Isso equilibra a balança comercial da região? FLÁVIA – Esse equilíbrio é uma meta mobilizadora da Suframa. Mas ainda não será alcançada neste ano, uma vez que as importações serão de US$ 3 bilhões. De qualquer forma, é um objetivo plenamente realizável. Talvez no segundo governo Lula.
A sra. está em campanha pela reeleição? FLÁVIA – Não, até porque a minha escolha foi técnica e eu nunca tive filiação partidária. Mas é inegável que o presidente Lula deu uma sinalização importante para a região Norte ao prorrogar os incentivos. Por isso, ele tem mais de 70% das intenções de voto por aqui. O amazonense é um povo grato e reconhece o que foi feito.
Existe também uma percepção de que os tucanos, com uma base paulista, são contra a Zona Franca? FLÁVIA – Existe a percepção de que eles são inimigos e isso está mais ligado ao José Serra do que ao Geraldo Alckmin. Essa briga não faz o menor sentido. Até porque empresas de São Paulo são grandes fornecedoras do pólo de Manaus. Além disso, empresas de celulares que foram para lá, como Motorola e Samsung, têm os mesmos incentivos.
O Serra questionava muito a renúncia fiscal. FLÁVIA – Os estudos mostram que, para cada real renunciado, é arrecadado R$ 1,3 em impostos. É uma renúncia entre aspas. Hoje, o Amazonas é o quinto Estado que mais arrecada em relação ao PIB. Só fica atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Vocês também estão envolvidos numa polêmica com Minas Gerais, que quer atrair a TV digital e um pólo de semicondutores. Isso é justo? FLÁVIA – Olha, os incentivos existem porque Manaus faz parte de um projeto estratégico do País, que está acima das questões econômicas. Os incentivos, na prática, cobrem o custo logístico. Quando outros Estados entram na guerra fiscal, cria-se uma distorção tremenda. E veja o caso de Minas Gerais. Eles já têm a siderurgia, a indústria automobilística, a agropecuária, um grande mercado consumidor e a maior malha rodoviária federal do País.
Mas o Aécio Neves agora quer semicondutores e a TV digital. FLÁVIA – Ele não deveria oferecer incentivos, porque isso distorce um projeto de desenvolvimento brasileiro, que está inserido num contexto geopolítico. Graças ao Pólo Industrial de Manaus, o Brasil tem uma ocupação populacional consistente na Amazônia e que não agride o meio ambiente. Aqui, menos de 2% da floresta foi destruído. Em outros Estados da região Norte, os números são diferentes.
O ministro Luiz Furlan tem resistido à pressão de Minas? FLÁVIA – Tem e é muito importante trabalhar com uma pessoa como ele porque, além de empresário competente, ele é um homem justo. E, para que exista igualdade na competição, nós, aqui de Manaus, precisamos contar com um diferencial. Veja o caso dos set-up boxes dos televisores. Nós já temos 13 empresas produzindo e outros 18 projetos aprovados. Estamos exportando US$ 100 milhões e vamos chegar a US$ 400 milhões. Não faz sentido querer transferir essa indústria de Manaus para outros Estados. |