O professor Augusto de Franco foi um dos participantes do 1º Seminário Gaúcho de Desenvolvimento Local, realizado recentemente em Porto Alegre. Sua palestra Por que precisamos de Desenvolvimento Local motivou a leitura do seu livro O lugar mais desenvolvido do mundo, de onde saiu o texto abaixo:
Existe um exercício simples que pode ser feito por qualquer conjunto de lideranças ocupadas com o desenvolvimento de uma localidade. Trata-se de um exercício para elaborar a fórmula para impedir que uma comunidade se desenvolva. Propõ-se às pessoas que elaborem uma fórmula contendo os fatores que, reunidos de uma certa maneira, conseguiriam, a seu ver, bloquear o desenvolvimento comunitário.
Toda vez que tal exercício foi feito com agentes de desenvolvimento, as fórmulas encontradas continham um ou vários dos seguintes fatores:
As pessoas repetem o que sempre fizeram Porque existe algo desmobilizando a sua criatividade e a inovação, em geral uma cultura que não as encoraja a fazer nada diferente do que já foi feito e, pelo contrário, infunde o medo de que empreender é muito arriscado e pode trazer prejuízos.
As pessoas permanecem na condição de beneficiárias passivas Porque foram transformadas em pacientes de programas assistenciais que já vêm prontos, desestimulando o enfrentamento coletivo dos problemas comuns.
As pessoas ficam esperando recursos que vêm de fora Porque tais recursos são sempre obtidos pela intermediação (clientelista) de algum benfeitor em troca de certo tipo de apoio (em geral eleitoral), substituindo a cooperação que alavanca recursos da própria comunidade pela competição por esses recursos de fora (para ver quem os conseguirá e quem deles se aproveitará).
As pessoas desconfiam uma das outras, não acreditam na capacidade das outras de fazer alguma coisa que beneficie a coletividade Porque sua cooperação é desestimulada por chefes (centralizadores), que dizem que só eles têm poder para resolver os problemas (se tiverem apoio, em geral eleitoral).
As pessoas e as organizações se relacionam verticalmente, em uma escala de subordinação, preocupadas o tempo todo com sua posição de poder e com sua capacidade de mandar Porque ficam à mercê da vontade de algum político poderoso para o qual não interessa a troca de informações e a articulação em rede da população para fazer qualquer coisa autonomamente.
As pessoas não participam das decisões sobre os assuntos comuns e nem são chamadas a colaborar para a realização de ações que dizem respeito aos destinos da comunidade Porque alguém (algum tipo de organização social ou política antidemocrática) não conta com elas e as exclui da esfera pública.
A única maneira de libertar a comunidade dos efeitos dessa cultura política - apassivadora, competitiva, hierárquica e autocrática é adotar práticas contrárias, ou seja, insuflar o empreendedorismo individual e coletivo, a cooperação, as redes e a democracia participativa. |