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O sono e o aumento da produtividade


Não acontece diariamente, mas vez ou outra, o gerente de marketing da Symantec Brasil, Christopher Cook, prepara-se para ir ao trabalho de forma bem diferente da maioria dos executivos. Veste uma roupa confortável, carrega a roupa mais social numa mochila, deixa a chave do carro em casa, e segue para o escritório de bicicleta, num trajeto que leva meia hora. "É perigoso, o trânsito é complicado, mas compensa. Faço exercício e me canso mais fisicamente, o que me dá a certeza de que terei um sono melhor", afirma.

A busca por uma noite bem dormida, levou Cook a mudar alguns hábitos em sua vida nos últimos anos. Faz regularmente musculação, opta por alimentação leve e saudável à noite e vê pouca TV no quarto, antes de dormir. Com isso, seu sono melhorou e a disposição para enfrentar o dia-a-dia corrido no trabalho cresceu bastante. "Já tive sono ruim e o impacto negativo disso no dia seguinte é muito forte. Tenho tentado melhorar meu sono a cada dia. A ginástica e a regularidade no horário de ir para cama ajudam", diz o gerente.

Contra noites mal dormidas, vale seguir o exemplo de Cook e tomar uma atitude. A primeira atitude a tomar, e a mais difícil, alertam especialistas em sono, é aceitar e reconhecer que você não dorme bem. Não adianta apresentar as tradicionais justificativas de ordem profissional, econômica e pessoal. É preciso assumir que o sono não está bom e enfrentar essa questão. Noites mal dormidas, ao longo do tempo, alteram até resultados de exames laboratoriais.

O mundo corporativo assimilou já há algum tempo a importância da realização periódica de check-ups e de técnicas de convivência e controle do estresse, mas ainda se mostra tímido para discutir o tema sono, embora noites de insônia ou sono interrompido sejam realidade para executivos, pressionados por cobrança de resultados e pelo clima de competitividade. São raras as empresas que discutem esse assunto em seus departamentos de recursos humanos.

"Existe uma pressão muito forte no dia-a-dia do trabalho desse perfil de profissional. Geralmente, as responsabilidades exigidas são imensas. Há pessoas que conseguem administrar essa situação melhor que outras, mas muitas não conseguem e têm que lidar com um sono nada reparador. Os sintomas? Mais cansaço que o normal, irritação excessiva, necessidade de trabalhar mais para apresentar igual desempenho. Quando isso acontece, deve-se procurar o médico do trabalho por estar dormindo mal. No longo prazo, as conseqüências serão graves", sentencia a neurologista e especialista em sono Dalva Poyares, também professora da Unifesp nesta disciplina.

Segundo ela, muitos de seus pacientes relatam que não é raro acordarem no meio da noite com a solução de um problema do trabalho. "Não dá para levar o trabalho para a cama. É fundamental criar formas que proporcionem um desligamento para se obter um sono reparador", diz. Na sua avaliação, as pessoas precisam aprender a se desligar em alguns momentos do dia, nos finais de semana, a ter lazer com a família e amigos e, antes de tudo, se permitirem dormir. O esporte também pode ajudar bastante, mas é preciso atenção para não transferir a competição do dia-a-dia para a prática esportiva.

Para Sérgio Barros, outro pneumologista especializado em sono e membro da Sociedade Brasileira do Sono, o impacto da insônia na vida de um executivo é enorme e o ideal mesmo seria trabalhar na prevenção desse mal. "Existe na sociedade uma desinformação muito grande com relação ao conhecimento do tema. As pessoas transferem a responsabilidade de uma noite mal dormida para outras questões, deixando de tratar do sono".

Barros é um dos poucos profissionais a ter um trabalho de qualidade do sono voltado para a área corporativa com foco na conscientização das pessoas a darem a devida importância para uma noite bem dormida. "O sono ruim gera estresse, ansiedade e implicações gerais que podem levar a um quadro de problemas cardiovasculares", afirma. Em 2003, o especialista foi procurado pela Minerações Brasileiras Reunidas (MBR) para desenvolver um programa de sono para a empresa. Um dos gerentes da companhia estava preocupado com a fadiga e sonolência das equipes de operação que trabalhavam em turnos e consultou a empresa para buscar ajuda no mercado. Um ano depois, a MBR inaugurava o que se transformaria em programa modelo para o setor de mineração na área de qualidade do sono. Ele inclui até um laboratório do sono que realiza o exame de polissonagrafia numa das minas da companhia.

"Inicialmente focamos o programa para os operadores de turno, mas atualmente ele é estendido praticamente a toda empresa", afirma a médica do Trabalho da MBR Ana América Ferreira Eduzige, também coordenadora desse projeto. O primeiro passo foi a conscientização de toda a empresa sobre a importância do sono e um diagnóstico geral. Funcionários e familiares foram envolvidos nesse processo. Hoje, qualquer funcionário da MBR pode solicitar a realização de um exame de polissonografia e contar com tratamento feito pela própria empresa, caso se constate que ele precisa de ajuda.

"Decidimos agir de forma preventiva e dar ao nosso funcionário qualidade de trabalho, agindo pró-ativamente", afirma a médica. Os resultados logo apareceram. No início do programa, a MBR contabilizava 670 horas ao ano de equipamento parado por sonolência. Em julho de 2005, o montante de horas paradas foi zerado. Hoje, na MBR basta um aviso do funcionário que trabalha como operador de turno que está com sono, para seu superior, sem qualquer problema, autorizar a pausa no trabalho. "Criamos a cultura da qualidade do sono e hoje o funcionário sabe identificar quando tem um problema. Esse trabalho de prevenção é fundamental", acredita Barros.

Conscientização foi importante também para o executivo Marcos Scaldelai, gerente de marketing da General Mills. Depois de ler o livro "A Semente da Vitória", do preparador físico Nuno Cobra, Scaldelai decidiu encerrar de vez a história de noites de sono ruim. "Eu me sentia incomodado e resolvi buscar mudanças três anos atrás. Passei a controlar minha alimentação, deixar de dormir com a TV ligada, tentar desligar dos problemas do dia-a-dia e praticar esportes. Hoje durmo muito melhor. Claro que no começo foi difícil, principalmente porque sempre gostei muito de dormir com a TV ligada, mas os resultados hoje compensam", afirma o executivo.

Marcela Milano foi outra que decidiu arregaçar as mangas para tentar solucionar, logo de início, as noites em que o sono insistia em não chegar depois que começou a cursar uma pós-graduação neste início de ano. "Sempre dormi bem, mas desde que voltei a estudar, meu sono mudou. Eu ficava mais cansada e não desligava", lembra a gerente de marketing da Matec. A executiva não teve dúvidas. Convidou o marido e matriculou os dois num curso de dança de salão todas as quintas-feiras. "Gosto de correr e de fazer musculação, mas descobri que este tipo de dança me relaxa a semana inteira. Meu sono melhorou muito e sinto-me mais relaxada durante o dia", afirma ela.

Esse, aliás, é outro ponto reforçado pela dra. Poyares. "Cada pessoa tem um ritmo biológico diferente. A média de sono é entre 6 a 9 horas diárias. Para saber se a quantidade de sono é boa, basta prestar atenção se você acorda bem, rende o dia todo e produz de forma adequada. Claro que existem outras variáveis, mas vale prestar atenção a esses detalhes", ensina a médica.

Quanto mais alto o cargo, mais problema de sono o executivo pode ter. De acordo com a neurologista, executivos que ocupam cargos mais altos são acometidos por um problema batizado de burn out. O profissional assume um cargo de muita responsabilidade com grande ânimo e motivação. Ao longo do tempo, porém, o organismo começa a reclamar. Sente-se cansado, não consegue desligar e para ajudar adia as férias e sempre agenda almoço de negócios. O sono reparador torna-se raro. "Falta agregar à agenda aquele momento de desligamento", afirma a dra. Poyares. Não há outra solução a não ser reconhecer que o sono está ruim e deixar de lado o tabu de que só existem outros problemas mais importantes. Sono ruim traz uma série de consequências problemas. O travesseiro é o melhor termômetro.    

Autor: Margareth Boarini / Valor Econômico

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